Maria Grazia Chiuri fala sobre a Cruise Collection 2020 da Dior, lançada em Marrakech.

3 May 2019

No dia 29 de Abril, a Dior lançou uma coleção surpreendente, com inspiração africana. Maria Grazia Chiuri fala sobre a sua Cruise Collection e sobre a colaboração de diversos designers africanos, em entrevista concedida para a Revista Vogue.

Fonte: Vogue online

 

 

Dois dias antes do desfile Cruise 2020 em Marrakesh, que aconteceu no El Badi Palace. Apesar de ter dormido apenas três horas, a diretora criativa da Dior estava com sua filha de 22 anos, Rachele – uma de suas maiores influências, ajudando a montar o line-up final para a coleção Cruise 2020.

Segundo a Revista Vogue,

 

"a maison francesa já tinha uma ligação anterior com o Marrocos: a boutique Joste, que fica em Casablanca, recebeu permissão especial para montar roupas com base nos moldes da própria Dior, cortados em Paris na década de 1950; e, é claro, há o antigo fascínio de Yves Saint Laurent pelo Marrocos, também. Mesmo com os paralelos e influência de seus antecessores – a coleção está estampada com a marca deles, desde a estampa selva de Marc Bohan para o casaco Marrakech  da Saint Laurent e o New Look da Dior – Chiuri escreveu seu próprio capítulo com a África para sua mais recente coleção. E é discutivelmente o capítulo mais importante da história da Dior. “Agora é impossível trabalhar na moda apenas para fazer roupas lindas”, ela diz a Vogue. “É preciso refletir o que você faz e por quê.”

 

As fontes de inspiração de Chiuri são tão ricas quanto variadas: desde os textos feministas de Naomi Zack à obra do poeta e ensaísta franco-marroquino Tahar Ben Jelloun, Racism Explained to My Daughter (visto na camiseta-slogan da temporada: “Culture teaches us to live together, teaches us that we’re not alone in the world, that other people have different traditions and ways of living that are just as valid as our own”); com o tecido “caldeirão de raças” de cera; contas feitas de vidro de Murano circulam pela África há séculos; a indumentária poderosa de Maya Angelou e de Nelson Mandela; e o legado da própria Dior.

 

“As pessoas acreditam que um projeto imediatamente tem uma ideia bastante definida, o que não é verdade”, diz Chiuri. “É algo que fica pronto passo a passo. Somos uma oficina; é um processo muito orgânico”. Para este projeto, o livro de Anne Grosfilley, African Wax Print Textiles impulsionou o primeiro passo. “Li o livro e pensei: podemos fazer diferença”. 

 

A partir dali, Chiuri recrutou Grosfilley, uma francesa antropóloga, curadora e especialista em tecidos e moda africanos, e foi atrás dos melhores do continente. Lista de chamada: Uniwax, o estúdio de design e fábrica na Costa do Marfim criador de 100% do tecido de cera feito na África; Sumano, associação que defende as habilidades e tradições por trás dos tecelões e ceramistas da região do Anti-Atlas; o estilista Pathé Ouédraogo, vulgo Pathé’O, famoso por desenhar as camisas ousadas e coloridas de Nelson Mandela; a chapeleira nigeriana Daniella Osemadewa e a designer afro-caribenha Martine Henry, co-criadora dos turbantes e enfeites de cabeça da coleção ao lado do chapeleiro britânico Stephen Jones. Além deles, a artista afro-americana Mickalene Thomas e a estilista Grace Wales Bonner, vencedora do prêmio LVMH, que foram convidadas para reinterpretar a icônica jaqueta Bar de Christian Dior. 

 

“O trabalho artesanal é parte de nossa herança, e como maison de alta-costura, temos de falar disso de maneira diferente, de maneira contemporânea”, diz Chiuri sobre sua motivação (mantendo-se fiel ao estilo, a coleção exibe também técnicas e silhuetas características da Dior: os terninhos clássicos, as elegantes roupas para noite, as adoradas criações de Chiuri em jeans e criações estilo alta-costura em seda cru, gaze de seda, shearling  e shantung de seda também).

 

Trabalhar com o Uniwax e com cera – um tecido historicamente nascido na Ásia, industrializado na Europa e adotado pela África – evidencia a intenção da Dior em estabelecer um diálogo genuíno com o continente. “Não se trata do uso de uma estampa africana apenas para deixar uma coleção africana”, explica Grosfilley. “É como a Dior está conversando com a África, como essas duas culturas separadas podem se encontrar e criar algo novo”.

 

 

 

Chiuri deu ao estúdio Uniwax, em Abidjan, carte blanche para reinterpretar as estampas Toile de Jouy e cartas de tarô da maison. O resultado é uma série de estampas em tamanho gigante, feitas em uma cartela de cores que abrange o cru (branco) e índigo, ocre queimado, amarelos amanteigados e verdes camuflagem.  “A estampa em cera sempre foi um tecido de prestígio”, explica Grosfilley, apontando o apurado processo por trás da produção – com pelo menos 20 passos transformadores e com trabalho intensivo necessários, é semelhante à alta-costura. É também um tecido enraizado na sororidade e nos laços femininos. “Apenas mulheres sabem o significado dos designs”, Grosfilley conta, descrevendo a maneira como as mulheres usam estampas específicas dependendo de quem planejam encontrar e o mood que desejam transmitir. Dançando ao longo das barras de saias e punhos de mangas vem uma clara mensagem de qualidade compartilhada: “Uniwax Special Edition Christian Dior – Guaranteed Real Wax Printed in Côte d’Ivoire”, lê-se. “É uma declaração forte de uma parceria e colaboração de verdade”, diz Grosfilley.

 

Pathé’O, que desenhou uma camisa especial para o desfile – feita de cera e estampada com o rosto de Nelson Mandela nas costas – fala sobre o imenso senso de orgulho que sente por fazer parte da colaboração. “O impacto desta coleção irá ecoar por toda a África, e pelo mundo”, diz. Grosfilley concorda: “Esta coleção é um indicativo para todos os africanos – designers africanos e designers de ascendência africana – para perceberem o talento e criatividade daqui. É hora de usá-los, de desenvolver a economia".

 

Para Chiuri, é também uma coleção profundamente pessoal: “Quero dizer que a moda ama outras culturas e pode trabalhar com outras culturas. A ideia de se fechar para evitar discussões” – ou, ela deixa subentendido, crítica em mídia social – “não pode ajudar ninguém”.

 

 

 

 

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